terça-feira, 23 de outubro de 2007

Violência, mas o que é violência?

Por Romero Cruz

Na semana passada tive a oportunidade de assistir no cinema o filme Tropa de Elite com uma carioca “da gema”. Quando terminou o filme perguntei: O que você achou? Ela respondeu: “Normal”. Fui para casa pensando naquela resposta, não conseguia aceitar aquela resposta porque eu não achava aquilo “normal”, mas aquela realidade ela conhecia.

Chegando em casa, vi pela TV as cenas da ação da polícia do Rio na favela da Coréia, onde policias atiravam em supostos traficantes de um helicóptero e logo lembrei dos filmes de guerra quando jovem (Platoon, Rambo...), lembrei também da resposta da minha amiga, “normal”, mas aquilo não era normal, e incomodava.

No dia seguinte, estava no carro parado no trânsito de São Paulo, pensando na noite anterior, quando bateram no vidro do carro, que susto! Mas, era só uma criança pedindo 'uns trocados" no farol. Ufa! “Normal”.

Vamos parar por aqui! As coisas não podem ser tão “normais” assim, na operação policial morreram 16 pessoas (até quando escrevi esse texto, porque a cada dia surgem mais vítimas), entre eles Jorge Cauã Silva de Lacerda, de apenas 4 anos de idade. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse que vai enfrentar o crime organizado com ações policiais, de 1º de janeiro a 30 de setembro, a polícia do Rio já tinha matado 961 pessoas, média de sete mortos a cada dois dias segundo o ISP (Instituto de Segurança Pública), vinculado à Secretaria de Segurança. Temos ainda o problema das milícias que são bandidos que usam ou usavam fardas. E no meio dessa guerra, temos a população, que sofre a carência da atuação do poder público pela falta de educação, saúde, infraestutura e políticas sociais.

Não estou aqui para escrever quem é inocente, quem age de maneira barbara, quem é incompetente ou culpado. Apenas para dizer, que sem oportunidades de um futuro melhor, nossas crianças de hoje estarão nas manchetes policias de amanhã. Enquanto nossas crianças estiverem nas ruas, a sociedade não assumi-las, veremos essas cenas muitas vezes ainda. E pelo sucesso que fez (a violência dá Ibope), assistiremos Tropa de Elite VII “A guerra não tem fim...”, isto é, assistirei se antes não tomar um tiro distraído no trânsito de São Paulo, por quem sabe, aquele garotinho que cresceu e um dia bateu no meu vidro pedindo apenas "uns trocados". Estamos perdendo o sentido do que é violência, e do que é “Normal”.

Um comentário:

Ivan Costa disse...

De fato, estamos perdendo o parâmetro do que pode ser considerado "normal". Até quando será possível se esquivar?
Parabéns! É uma crítica audaciosa. Contrasta com a miopia ideológica dos universitários que o próprio filme em questão denuncia.