quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Apenas mais uma carta de amor

Por Telma De Luca


O "circo" da Fórmula 1 está chegando a São Paulo, os hotéis cheios, os restaurantes ávidos pelos abonados clientes, as profissionais de vida nem tão fácil assim sendo procuradas, mas....cadê você ?

Eu nunca fui fanática por Fórmula 1, dessas de saber quantos pontos alguém está à frente de outro, quais são os circuitos corridos durante o ano ou se determinada pista é mais rápida ou mais lenta. Mas aos domingos você me chamava para a frente da televisão. E não era de um jeito meigo ou delicado, a sua cara era até um pouco fechada. Na verdade, acho que hoje, com alguns anos passados, eu poderia até chamá-lo de ranzinza. Parecia que sempre estava pronto a mandar alguém ficar quieto ou dizer como é que as coisas têm de ser feitas. Não lembro o dia, nem mesmo o ano e até fico em dúvida se realmente foi no Brasil; mas lembro de sua figura meio trôpega com cãimbras no corpo todo erguendo uma taça realmente merecida.

Lembro também que quando eu vi "mais um" acidente, pensei "ih, logo logo aí vem ele com a sua cara de poucos amigos, batendo o pó do macacão e reclamando de algum mecânico". Esse ano,sim, eu lembro, 1994. Estava na faculdade e tinha de estudar para a prova do dia seguinte. Lembro que meu pai me chamou para ver o que acobteceu, comentamos "mas já ? que pena!" e seguimos, eu estudando e ele vendo a TV.

Mas você não saiu reclamando, não bateu o pó do macacão e nem fez cara de ranzinza. Horas com o rádio ligado, ouvindo as notícias do hospital na Itália. Elas eram desencontradas, nos davam e tiravam esperanças a cada minuto. Também chega à minha memória ouvir aquele comentarista da Globo que grita bastante dizer "Ayrton Senna morreu". No dia seguinte, as ruas estavam quietas, a tristeza estava estampada em todos os rostos, inclusive daqueles que, como eu, não eram aficcionados pelo seu esporte. Eram fascinados por você, por seu espírito guerreiro e sua maneira objetiva e serena de dizer "corra atrás dos seus sonhos", "acredite em você". E como duvidar ?

Não sei se você foi o mais brilhante, o melhor de todos os tempos, tecnicamente falando, mas nesta semana muitos mais lembrarão de você e a sua musiquinha vai tocar pelo mundo afora. Escrevo apenas porque lembro de você dizendo com palavras e de meu pai, que também não está mais aqui, com atitutes: "Acredite nos seus sonhos".

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