Isabela Boscov, editora de cinema da Revista Veja, fala, nesta entrevista, sobre o filme Tropa de Elite.Semana em Foco: Qual a novidade que o filme Tropa de Elite, trouxe para o cinema nacional?
Isabela Boscov: O cinema brasileiro por uma série de razões, sempre se preocupa mais com o ponto de vista do crime ou da proximidade dele, tem sempre muitas histórias que influenciam isto, hábitos narrativos e ideologias. Teremos policiais como personagem desta vez, e o policial mesmo utilizando métodos deploráveis e cruéis, é um policial que quer se manter honesto e fazer alguma diferença no trabalho dele.
SF: Qual o público-alvo do filme Tropa de Elite?
Isabela Boscov: Discordo desta visão, acho que o filme foi feito para qualquer um. Essa visão mercadológica existe em uma parcela do cinema brasileiro, mas no geral é uma maneira americana de ver o cinema brasileiro, porque o cinema americano tem uma origem mercadológica. O cinema brasileiro não se orienta desta forma, no geral, principalmente em filmes mais pessoais como o Tropa de Elite, Cidade de Deus e o Cheiro do Ralo, têm todas as categorias de filme que você pode imaginar, nasce mais da vontade do cineasta.
SF: O filme choca mais pelo conflito social que traz do que pelas cenas em si?
Isabela Boscov: Eu acho que Jose Padilha, tem uma vocação especial mesmo, tanto no 174 (documentário Ônibus 174), quanto neste filme, dá uma visão tão cheia de facetas, sobre o tema que ela de fato se torna chocante, você vê aquele assunto na totalidade dele, que acaba virando mais chocante do que a cena, tem sim muitas cenas chocantes, um exemplo é a cena do saco plástico, que é horrorosa, ver a situação tão completa o torna absolutamente chocante.
SF: O filme não traz uma solução, por isso, não tem um fim, isso o tornou mais real?
Isabela Boscov: Não há uma solução simples. Onde está a solução? O que o filme faz na verdade é o seguinte: Te dar uma série de dados e regras, e dentro destas regras, mostra como que estes personagens podem se movimentar. O filme choca inclusive porque ele não propõe nenhuma saída, ele termina sem dar uma mudança de regras, porque realmente você tem que começar do zero novamente.
SF: O filme levanta a polêmica do financiamento do tráfico por “playboys”, ele rompe o estereótipo de que drogado é só pobre e favelado?
Isabela Boscov: O tráfico no Brasil e no mundo, sobrevive do usuário recreativo e o fato de o diretor colocar este consumidor eventual, que acha que não esta fazendo mal nenhum, pelo contrario é apresentado como sócio do crime. É uma coisa que vários secretários de segurança já tentaram mostrar e desistiram, mas o filme deixa isto muito claro.
SF: Em uma entrevista, o diretor Jose Padilha, disse que não imaginava que seu filme seria tão pirateado, se mostrando decepcionado em investir no cinema nacional. O que você tem a dizer sobre isso?
Isabela Boscov: Eu sou radical neste ponto, lei é lei, e se você acha que é injusto, como membro da sociedade, tem que se unir ao demais e tentar mudar, pirataria é crime. Comprar um CD aqui, um DVD ali, você está sendo sim, sócio do crime.
Existe uma visão que eu acho completamente equivocada, de que a pirataria é uma forma de disseminar a cultura. O José Padilha esta sendo privado do direito dele, ele não vai recuperar tudo aquilo que ele investiu.
SF: O capitão Nascimento no filme é um policial “herói” cheio de problemas. As pessoas se identificam com ele?
Isabela Boscov: Diante da violência social, como no caso de João Hélio (garoto que foi arrastado e morto por assaltantes no Rio), as pessoas vêm levando suas emoções ao extremo, querendo tirar os assassinos da face da terra. Eu saí do filme mais convicta do que nunca, de que a violência é a pior resposta para a violência.
Um comentário:
É evidente que o cinema brasileiro não tem o apelo comercial que se tornou a marca de Hollywood, mas ninguém faz filme pra ser desastre de bilheteria, senão a pirataria não seria um problema. O filme podia não ter um público-alvo definido, mas a verdade é que se tornou assunto obrigatório em rodas de adolescentes que, por falta de hábito ou de dinheiro, não freqüentam salas de cinema. É a contradição da nossa sociedade onde nem o BOPE se salva da pirataria.
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