sexta-feira, 11 de abril de 2008

O Jornalismo do Espetáculo

Por Tatiana Melim

Nesses últimos dias acredito que todos puderam acompanhar a cobertura que está sendo feita pela imprensa do caso da garota Isabella, de 5 anos, que foi encontrada caída no jardim do prédio em que o seu pai, Alexandre Nardoni, morava com sua esposa, Ana Carolina Jatobá. A menina foi levada ao pronto-socorro, porém não resistiu e morreu.

Pois bem. Indubitavelmente é um fato noticioso que precisa ser divulgado ao público. Realmente é um episódio que comove e deixa diversas pessoas indignadas. Entretanto, diversos casos como esse, que choca e provoca indignações, acontecem em todo o Brasil, porém não são divulgados.

O que o jornalismo está fazendo é: transformar um caso comovente e a dor de diversos envolvidos em uma novela, num espetáculo em que no final descobre-se quem foi o grande vilão. Assim como as perguntas que surgem e dão audiência às novelas como: Quem matou “fulano”?, estão sendo feitas em uma caso sério como esse: Quem será que matou a garota Isabella?

Parece-me que a “teoria do jornalismo” dessa grande imprensa é noticiar tragédias, fazer de um caso sério um espetáculo para a massa, sem contar nos casos de publicações de dossiês ou informações falsas ou mal apuradas. Os jornalistas acreditam que são os donos da verdade e que podem fazer o papel da polícia ou de órgãos governamentais. Esqueceram-se da importância do papel que deveriam exercer, das influências que suas atitudes têm para a formação da sociedade e da função social que é fazer jornalismo.

Substituiu-se a lógica da função jornalística e, hoje, esta foi sujeitada a ser mais uma mercadoria que pode gerar grandes lucros aos donos dos conglomerados da comunicação. As informações são trabalhadas de forma que a sociedade fique alienada, e assim, todos se sintam como se estivessem informados. No entanto, eles não percebem que as informações são as mesmas, obtidas das mesmas fontes ou agências, com o mesmo foco e com um texto muito semelhante iniciado pelas perguntas: O quê? Como? Quando? Onde? Por quê? e Quem?. A única diferença existente é que pertencem a veículos diferentes.

3 comentários:

Unknown disse...

Oi, Telma!

Dessa vez você fez um gol de letra!

A grande mídia ocupa muito tempo e espaço com o caso infeliz da menina Isabella, bisbilhotando em delegacias e na porta da casa da família dos acusados, como se de repente os suspeitos fossem fazer alguma revelação bombástica.

Faz muito tempo que a lógica foi assassinada na mídia brasileira, e esse "crime" nunca foi noticiado.

Enquanto isso, lá em Roraima a nossa Amazônia vai sendo entregue ao interesse internacional sob o pretexto de se criar uma reserva indígena.

Amazônia já se encontra em poder de estrangeiros. A tarefa agora não é mais protegê-la e sim tentar recuperá-la.

Este tipo de notícia só circula em sites de jornalistas, blogs e jornais menores.

Um abraço.

Unknown disse...

Ops, desculpe!

Leia-se "Oi, Tatiana"

Chico Bicudo disse...

Parabéns pelo texto. Não discuto a relevância do episódio e o interesse público que ele desperta. No entanto, a tarefa do jornalismo é trabalhar e reportar os fatos, com serenidade e responsabilidade, de forma ética, escapando das especulações e dos boatos. Mais: deve ainda evitar o sensacionalismo, os exageros, as vociferações, as condenações antecipadas, os julgamentos e sentenças sem que a polícia sequer tenha concluído as investigações. Como você bem aponta, transformamos a morte da menina Isabella em uma novela, e é preciso, a cada dia, apresentar as cenas dos próximos capítulos, para que a audiência não se disperse, não se perca, e fique grudada na cadeira, diante da telinha, esperando as "novas informações sobre o caso". Esse comportamento midiático reforça os sinais de uma sociedade em crise, doente, que perdeu seus parâmetros e referências, e que passa a ser movida pela estética do espetáculo e pela paranóia do medo. Beijos, Chico.